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Treze Santos: São Francisco de Assis, o Pobrezinho de Deus – 1ª parte

saofranciscoA idade das trevas?
É tão difundido hoje o mau hábito de falar a troco de tudo e de nada de “medieval” como sinônimo de “obscurantismo”, que desejo deixar claro que nesta série falarei apenas de dois santos medievais: São Francisco de Assis e São Tomás de Aquino. Se alguém ainda quiser usar para a idade média a definição de “idade das trevas” – que me parece bastante tola – deveria aplicá-la somente ao período entre 750 e 950, designando como “idade média” a época entre 1050 e 1350, no máximo. São Paulo, Santo Antão e Santo Agostinho não pertenceram nem à”idade das trevas” nem à “idade média”. Santo Ermano e Santo Eduardo viveram na época de transição pré-medieval. Francisco e Tomás são, verdadeiramente medievais, e devemos encontrar outra definição para os que vieram depois deles.
É bem verdade que podemos chamar certas épocas de “idade das trevas”, comum certo fundamento, sobretudo porque, até tempos muito recentes, não foram, por assim dizer, bem estudadas, embora quem quer que esteja a par dos estudos eruditos contemporâneos sabe que mudança radical deveria sofrer a opinião de muitos quanto àquele período histórico.
A teoria de um progresso ininterrupto da humanidade já ruiu há muito. Por muitos aspectos, o século XIII foi mais avançado do que o século XVI ou o XVIII. Os estudos que em toda parte foram dedicados a São Francisco de Assis e ao feto apaixonado que sua personalidade inspirou aos homens das mais diversas convicções contribuíram mais do que qualquer outra coisa a colocar na justa perspectiva o século intensamente criativo, no qual ele viveu.
O jovem Francisco
Francisco aparece inesperadamente, jovem d e20 anos, prisioneiro numa guerra entre Assis, cidade da Úmbria, Itália, e Perúgia, sua rival da vizinha Toscana. Era uma época tempestuosa de transição entre o feudalismo e o poder dos municípios, das comunas, e tais guerrinhas se sucediam com freqüência.
Francisco era um jovem esbanjador, mas não menos mão aberta para dar do que para gastar, Era ousado e original, até à extravagância. De tamanho pequeno, mas incansável, profundamente sensível à música e à cor, e com todas as rápidas reações de um temperamento artístico inclinado à melancolia e ao sonho. Era fascinado pela poesia francesa e pelas canções cavaleiresca dos trovadores.
Era tido como um dos mais brilhantes dos jovens da juventude dourada de sua cidade, sempre chamado a liderar suas travessuras, conhecedor de toda as formas de diversões.Contudo, se não me engano, ele se salvou de participar completamente no ambiente em que se encontrava envolvido. Por aquele tipo de véu romântico, que nele criava a necessidade de transportar na guerra, no amor e até no vestir um quase místico mundo imaginário.
Depois de sua captura e prisão, durante a qual estava tão radiante que seus companheiros de infortúnio chegaram a pensar que delirava, veio a reação. Libertado, mas extenuado, apoiado num bastão, contemplava os ciprestes e vinhedos daquele pedacinho do mundo, que parecia sempre revestido de um véu dourado, e se admirou que pudesse amá-lo tanto… mas o ânimo antigo retomou, em parte, ao convalescente.
E partiu numa outra guerra contra invasores alemães. E eis que lhe aconteceu, num amanhecer, na semi-vigília, tendo sonhado comum palácio cheio de esplêndidas armaduras, onde uma esposa o servia, ouvir uma voz que lhe perguntava: O que é melhor, servir ao servo ou ao senhor? Respondeu: Claro que ao Senhor!
A Dama Pobreza
Espantado, voltou a Assis. Retomou sua vida brilhante, mas lhe acontecia ficar, subitamente, absorto em meio às festas. Tinha, de repente, notado a pobreza do povo miúdo de Assis, que deixava seus abrigos miseráveis para admirar a juventude dourada e festiva… Seus colegas caçoavam dele e lhe perguntavam se estava enamorado… Assim era, e de uma nobre princesa, mas amável de quantas tinham conhecido. Os amigos se riam. Mas restava o fato de que ele tinha vislumbrado a Dama Pobreza e tinha começado a amá-la. E a amava, enquanto tremia de horror ao pensamento de abraçá-la…
Começou a rezar. Foi em peregrinação a Roma, e não apenas deu todo o dinheiro que levava aos pobres, mas mendigou por um dia e retornou a Assis ainda envolto em desgosto pela recordação dos trapos, da sujeira, dos maus cheiros, da humilhação sofrida. Sentiu que devia vencer estas impressões, lentamente. Contudo, não quis mais dar esmolas às escondidas, aterrorizado com o receio das caçoadas das pessoas de sua classe. Começou a dá-las abertamente, na porta de sua casa.
Mas isto não bastava! Ainda era o gesto de um homem que estava em nível superior para com outros, que se colocavam a seus pés. Tinha de se tornar igual a seus semelhantes!
O leproso
Encontrou um leproso, e vencendo a repugnância, beijou a mão, na qual tinha depositado sua esmola. O leproso levantou o rosto e lhe deu um beijo da paz… Inconscientemente, o passo decisivo tinha sido dado. Por algum tempo rodeou o seu novo domínio da pobreza. Numa capela em ruínas, dedicada a São Damião, ouviu uma voz: Francisco, reconstrói a minha igreja que está em ruínas.
Sem pensar que fazia algo ilícito, Francisco vendeu uma partida de mercadorias do seu pai e levou o dinheiro ao padre de São Damião, que, amedrontado, a recusou. O pai se enfureceu, olhe bateu, e o prendeu em casa e terminou pro deserdá-lo, renunciando a ele, como ele renunciou a tudo quanto havia constituído a vida, para a qual tinha sido educado.
Francisco desposou a Dama Pobreza por amor de Cristo.