Treze Santos: São Francisco Xavier, correio de Cristo – 5ª parte
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Treze Santos: São Francisco Xavier, correio de Cristo – 6ª e última parte

japaoO Japão
Foi, a esta altura, que pensou no Japão. Recordem: ele não era um fanático, que se aventurasse sem mais em terras desconhecidas. Antes de andar, procurava conhecer a língua e a religião do país. Assim traduziu o Evangelho de Mateus para o japonês e o decorou! No Japão, porém, parecia que sua obra estava destinada ao fracasso. Toda sua vida lhe parecia um fracasso. Pelo contrário, foi lá que sua obra, com o passar do tempo, encontrou um verdadeiro sucesso.
Mas ele sofreu um verdadeiro Getsêmani de terror antes de viajar. Dotado de  viva sensibilidade, sua coragem era coragem verdadeira, porque não apenas temia o que previa, mas também o aterrorizava o desconhecido. Não iria deixar atrás de si mais do que cerca de 1.150 a 1.200 cristãos, mas eles foram semente de uma colossal igreja, que resistiu a uma continuada e crudelíssima perseguição, que nunca a pôde destruir completamente.

Fechando o mapa
Em 1552, Xavier partiu para tentar o ingresso proibido na China. Chegou à ilha de San Cian, em frente ao Si-kiang, onde hoje se encontra Cantão. Mas nenhum piloto quis levá-lo ao continente, onde a dinastia Ming punia de morte os estrangeiros que ousassem pisar em terra do Celeste Império do Meio e quem os favorecesse. Nesta situação, foi atacado de febre. Escreveu: Poderei entrar na China? Não sei. Tudo me é contrário. Em novembro, contando apenas com a companhia de um empregado do Malabar e um jovem chinês, adoeceu gravemente. Foi sangrado algumas vezes e começou a delirar, Falava em navarro, sua  língua materna. Entendia-se o nome de Jesus repetidamente.
Temos relatos pormenorizados de seus últimos dias. Procuremos imaginar uma miserável cabana, com tetos de folhas de palmeira; uma candeia, com apequena chama vacilando ao vento; a rumor das ondas; o crucifixo amarrado no alto pelo chinês; mais além a China invisível e inacessível.
O doente já não podia falar e só olhava o crucifixo, memorial da morte de Cristo. Era tempo de enrolar o mapa e terminar a longa peregrinação.
Inácio estava longe, em sua mesa de trabalho em Roma, e terá sido para ele o último adeus. Lembranças da inebriante alegria dos tempos de Paris; da querida casa paterna em Navarra – depois da qual nunca teve uma casa “sua” – oferta a Deus e lá deixada: Em Tuas mão confio toda minha vida terrena e minha vida eterna.
Assim passou a noite de 2 para 3 dezembro. Apenas o jovem chinês estava na cabana com ele. Ao largo da praia, o navio de um comandante português amigo, que retardava ao máximo sua volta para Goa, arriscando-se a ficar preso no Mar da China pela temporada dos tufões. Xavier piorara muito a bordo, e a fresca cabana lhe dera mais alívio do que o camarote do capitão, oscilando nas ondas.
Às duas horas do dia 3 de dezembro, os ventos e as ondas se fizeram mais turbulentos, e Francisco também se moveu. O atento amigo chinês colocou uma vela na mão de Francisco, que a manteve ereta. Talvez, à primeira luz da aurora a chamazinha se apagou, mas, de certo, naquela hora servidor e companheiro de Jesus crucifixo, Francisco Xavier morreu.
O bom amigo, comandante português levou seu corpo a Goa, onde se encontra seu venerado sepulcro.
Como ficaria contente se, nas poucas coisas que disse deste homem magnífico e tão digno de amor, tivesse podido fazer compreender uma pequena parte do que ele foi verdadeiramente. Eu mesmo experimentei que o que ele realizou não foi cancelado.
Um dia, vizinho a Tilbury, durante uma processão católica, um fiel goês, que havia representado a figura de Francisco Xavier, no fim da cerimônia – imaginem! – tirou a roupa do personagem e correu para mim, ajoelhou-se e pediu minha bênção. E isso só porque eu o tinha encontrado a bordo de um navio, cuja equipagem era de Goa, e havia celebrado a Missa de Natal à meia noite para ele e para os seus companheiros. Era a mesma missa que, séculos atrás, Francisco Xavier tinha ensinado seus antepassados a venerar, amar e não esquecer.
Deixo com vocês Francisco Xavier, herói cristão, mas talvez seria melhor dizer “colegial” até o fim, a despeito do rosto envelhecido e dos cabelos grisalhos.