Louvor à Santa Cruz – Santa Teresa de Jesus
abril 24, 2013
Santa Teresinha do Menino Jesus
abril 27, 2013

Treze Santos – São Paulo Apóstolo (1) – Saulo de Tarso

tarsoCyril Martindale foi um escritor, Padre jesuíta, muito conhecido na Inglaterra do tempo da 2ª Grande Guerra e nos anos imediatos. Estas 13 figuras de santos são das melhores e mais honestas apresentações destes heróis da fé, nem sempre célebres, alguns quase anônimos. Mas é importante fazer a memória deles. Já dizia o autor da Didaqué, o primeiro catecismo cristão, lá nos fins do século primeiro ou começos do segundo século depois de Cristo: “Procurai, cada dia, o vulto dos santos e encontrai conforto em suas palavras”. Bem antes, o Sábio dedicou 6 capítulos (Eclo 44 a 50) “ao elogio dos homens ilustres, de nossos pais em suas gerações” (Eclo 44,1). O conhecido capítulo 11 da Carta aos Hebreus é uma comovida recordação da luta dos nossos antepassados, vencedores “pela fé”. Jesus lembra vários de seus nomes, ditos e feitos, tirando daí inspiração para nós, seus discípulos.

Inácio de Loyola, nos seus “Exercícios Espirituais” [100], recomenda a leitura de livros “ como a ‘Imitação de Cristo’, os Evangelhos ou vidas de Santos”. Ele mesmo tinha tirado muito proveito destas leituras, em particular na fase de sua conversão. A brevidade, o colorido humano e o respeito à verdade da vida, tornam estes textos de Cyril Martindale especialmente aptos para os orientadores de EE ajudarem os exercitantes no momento apropriado.

Pouco antes que a costa da Ásia Menor tome a direção do sul, da Palestina, há um pequeno triângulo de terra entre altas montanhas: a Cilícia, onde, nas margens do rio Cidno, se encontra a cidade de Tarso. Durante mil anos antes de Cristo, os gregos, os assírios, os persas, os sírios, os judeus e, por último, também os romanos se sucederam naquela região. A cidade conheceu o poder de Júlio César e, por breve tempo, teve seu nome mudado para Juliópolis.

Quando César foi assassinado, Antônio chegou a Tarso para conhecer “a outra metade do mundo”, Cleópatra, rainha do Egito, veio a seu encontro com sua galera de velas tecidas de púrpura e remos de prata.

Tarso, contudo, sempre conservara sua personalidade própria e se orgulhava de tê-lo feito. Para salvaguardá-la e desenvolvê-la, havia realizado grandes trabalhos, modificando o leito do rio, que antes se distribuía em canais lodosos, que faziam de seu delta uma planície doente de malária. Havia consolidado a linha costeira com muitos diques, portos e docas. No interior, plantara fecundos pomares. Seus ricos mercadores tinham construído, nas encostas das colinas, suntuosas casas de campo. Através da serrania do Taurus, muralha rochosa de cerca de 3.000 metros de altitude, tinham talhado,a golpes de picareta, uma estrada, ladeando precipícios verticais de quase 1.000 metros, abrindo ao comércio uma estrada, que, cruzando, lá em cima, uma desolada região de espinheiros e lagoas salgadas, atingia a vertente oposta e alcançava as grandes cidades mercantis de Éfeso e Esmirna, de onde seus produtos eram exportados facilmente para os portos da Grécia, Itália, Gália, Espanha e Bretanha.

Dominantes sobre os privilegiados mercadores, estavam os cidadãos romanos, altivos como príncipes.

Nesta cidade, que guardava o legado de tantos séculos, quando Nosso Senhor Jesus Cristo teria uns dez anos, nasceu um menino. Recebeu o nome de Saulo, isto é “Saul”, o primeiro rei de Israel. Era de família hebraica, da tribo de Benjamim. Seu padre, cidadão romano, era tenazmente judeu e enviou o filho, com a idade de 13 anos, para Jerusalém, a fim de ser educado pelo famoso Rabi Gamaliel. Assim, Saulo recebeu uma formação tradicional, estritamente religiosa e ciosamente nacionalista.

Embora orgulhoso de sua cidadania romana e capaz de apreciar plenamente a grandeza e a estrutura do império romano, Saulo cresceu apaixonadamente judeu. Ele devia ser, sobretudo: “hebreu, filho de hebreu; fariseu, filho de fariseu; vivendo com fariseu segunda mais rígida lei de nossa religião” (Fl 3,5). Ele se sentia “irrepreensível” com respeito as dez mil regras que a tradição ajuntara à Lei de Moisés.

Tendo voltado a Tarso, durante o tempo da breve vida pública de Nosso Senhor, ele nunca o encontrou. Mas estava de regresso a Jerusalém, quando São Estevão levava ao paroxismo os seus ouvintes, proclamando que aquele Jesus, que haviam crucificado, era o Cristo, o rei deles. E, enquanto a multidão reduzia Estevão a uma massa sangrenta sob uma chuva de pedradas, o jovem Saulo tomava conta dos mantos, que os agressores tinham despido para o apedrejamento. Assim ele aprovava quanto tinham feito.

Depois se dirigiu, imediatamente ao Sumo Sacerdote para ter autoridade de exterminar a nova seita. Entrou à força nas casas, prendeu mulheres e homens, ele mesmo o diz – quando a lembrança daqueles dias se tornara uma causa de tormento opressivo: No excesso de minha loucura eu os perseguia até em cidades distantes. De fato os cristãos refugiaram-se em Damasco, e lá os perseguiu, “respirando ameaças de morte contra eles” (cf. At 22,1-20 e paralelos).

A clara Damasco brilhava ao sol entre os palmares, quando uma luz ofuscante, que superava a do sol esplêndido, fulgurou de repente diante dos seus olhos e desta luz surgiu uma visão e se fez ouvir uma voz: Saulo, Saulo porque me persegues? Ele respondeu: Quem és tu? E a visão lhe disse: Sou aquele Jesus, a quem persegues? E Saulo: Senhor, que queres que eu faça? Jesus lhe disse: Levanta-te e entra na cidade e lá te será dito o que fazer. Cegado, conduzido pela mão, tropeçando, Saulo entrou na cidade, foi recebido na casa do cristão Ananias, instruído e batizado (cf. At 9,1-19).

Vemos aqui uma inteira vida violentamente erradicada; uma concepção de vida revolucionada; uma carreira de fama brilhante e de nacionalismo feroz interrompida para ir de encontro ao furor dos antigos aliados, e também, na melhor das hipóteses, ao frio estupor dos cristãos, ainda chorando o sangue das feridas que aquele terrível convertido lhes tinha infringido.

Assim, não é de admirar que ele se tenha refugiado, primeiro, nos desertos árabes para se reencontrar a si mesmo e temperar a vontade em vista das futuras lutas, chegando a penetrar, através da prece e da meditação, no profundo mistério que lhe tinha sido revelado: que Cristo é uma só realidade com os cristãos – “Por que me persegues?”. Que Cristo era nele – “Cristo se manifestou em mim”. E que precisava dar-se conta do enorme encargo que lhe tinha sido atribuído, o de ser apóstolo do mundo – “Tu és como um escrito selecionado de propósito, no qual meu próprio Nome deve ser levado bem longe, ainda entre os pagãos” (At 9,15).

(continua)