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abril 27, 2013
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abril 27, 2013

Treze Santos: São Paulo Apóstolo (2ª parte)

São Paulo – O Apóstolo dos Pagãos (morto, provavelmente em 67 d. C.)

Ciryl Martindale, SJ

templo_Jerusalém_maqueteDe certo não posso, num espaço limitado, sequer esboçar a vida deste homem novo: seu regresso à Palestina, o gradual reconhecimento por parte dos apóstolos; suas lutas contra os líderes judeus, que o viam como um perigoso traidor; sua vida apostólica, inacreditavelmente ativa, que teve início nos arredores mesmo de Tarso para, em seguida, abranger toda a Ásia Menor, as cidades romanizadas e as velhas povoações feitas de pedras, nos planaltos ainda não corrompidos e que ele tanto amava. Depois, as cidades litorâneas, centros comerciais e ainda fanaticamente religiosos, como Éfeso, uma espécie de mistura entre Xangai e Meca. Em seguida, passando à Europa, onde, por exemplo, se deteve em Filipos, encruzilhada vital do comércio e do poder militar do império. Missionou Tessalonica, hoje conhecida como Salônica. Nem mesmo dá para descrever sua estadia na refinada Atenas, onde, cortesmente, caçoaram dele, ou em Corinto, cidade comercial e crassamente imoral, que, no entanto, lhe deu melhor acolhida. Nem posso entrar em pormenores sobre sua viagem a Roma. Seu naufrágio ao largo da ilha de Malta é descrito vivamente por seu medico e biógrafo, Lucas (At 27,9-28,10). Nem posso expor as razões pelas quais acredito que seja certo que ele tenha estado na Espanha e, possivelmente, também na Bretanha.

Também não cabe neste espaço discutir seu caráter, explorar seu culto à amizade, sua vibrante sensibilidade, seu fino sentido de gratidão, seu apaixonado interesse por todas as coisas, mesmo as referentes ao atletismo. Ele menciona, por exemplo, que tem uma corrida a correr e corre sem hesitar para a meta (ver 1 Cor 9,24; Gl 2,2 e 5,7; Fl 2,16). Diz que luta, não como um pugilista que golpeia o ar (1 Cor 9,26), etc.

E como descrever sua ternura quase maternal, sua firmeza de convicção pura e ardente, sua atenção a pormenores, a sublimidade de seu ideal, e sua indiferença diante do próprio sofrimento físico e dos perigos,que constantemente o ameaçaram por obra de assaltantes, de capangas e da polícia mesma, do mar e do fogo? (ver 2 Cor 11,16-33).

Só podemos mencionar seu delicioso senso de humorismo, sua perfeita cortesia, sua coragem firme, necessária para o trabalho monótono. A princípio para convencer (inutilmente) seus companheiros judeus. Depois desenvolvido entre populações pagãs (que conseguiu converter). Voltava sobre seus próprios passos no esforço de manter seus convertidos constantes na fé professada.

Tudo isto foi realizado por um homem de baixa estatura, nada impressionante na aparência, muitas vezes enfermo e que, freqüentemente, sentia-se desesperadamente solitário. Estas coisas digo não de minha fantasia, mas é possível comprová-las, palavra por palavra, com suas próprias cartas.

Escolho, no entanto, dois fatos mais evidentes. Primeiro, uma coisa que ele fez e, depois, porque a fez.

Através de vastíssima praça que circunda a porta mais interna do Templo de Deus em Jerusalém, se encontrava um muro. Numa inscrição em mármore constava que todo não judeu que cruzasse o muro estava sujeito à pena de morte. Cristo, disse São Paulo, derrubou o muro da divisão (Ef 2,14). A paternidade de Deus, a irmandade de Cristo, a salvação são para todos os seres humanos, para os pagãos não menos que para os judeus. Desde o começo, esta foi a doutrina cristã: os outros apóstolos o haviam proclamado e tinha atuado em conformidade. Paulo, porém, declarava que sua vocação pessoal era de pregar a verdade sobretudo aos pagãos (Rm 11,13). E exclamava: Não existe, doravante, diferença nenhuma entre judeu e grego, livre e escravo, homem e mulher! Vós todos sois um só corpo em Cristo Jesus (Gl 3,28; Cl 3,11). Ser circuncidado ou incircuncidado não conta, mas só a nova criação (1 Cor 7,17-24).

Paulo proclamava tudo isto com apaixonada insistência. Todos os santos vivem intensamente suas vidas. Escreveu: Deste Evangelho eu fui constituído ministro pelo dom da graça de Deus que me foi dada, segundo seu eficaz poder (…) Sim, a mim, o mínimo de todos os cristãos, foi concedida esta graça de anunciar aos pagãos as incomensuráveis riquezas de Cristo (Ef 3,7-8). Por isso, eu me canso e luto na medida de sua energia que age poderosamente em mim (Cl 1,29).

Uma curiosa associação de idéias! Se não fosse a energia deste homem, potencializada pela força de Deus em Cristo, não haveria hoje a grande e escura cúpola da catedral de São Paulo dominando as águas do rio Tamisa, em Londres. Mas que São Paulo possa nos deixar algo maior que uma cúpola! As catedrais, contudo, são destinadas a desabar mais cedo ou mais tarde. O que, então, pode ele dar-nos?

(continua)