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Treze Santos: São Vicente de Paulo

SÃO VICENTE DE PAULO – O homem da caridade (1580-1660)
saovicentepauloAtrás de todas as obras de caridade contemporâneas (assistência à infância, aos enfermos, aos presos) está São Vicente de Paulo. Foi contemporâneo de Shakespeare. Poderia contar-lhes o triste período da história da França do seu tempo, , um país continuamente cruzado por exércitos em batalha, com seu séquito de incêndios, mortes e saques. Era uma nação onde nobres, sequiosos de poder, conspiravam uns contra os outros e todos contra o rei. Mas era um país onde haviam vivido São Francisco de Sales e Santa Joana de Chantal, que se empenharam sem muito êxito em fazer o que São Vicente haveria de conseguir.
Seus pais eram pequenos rendeiros no sudoeste francês e não tinham empregados. O filho começou logo a levar os animais a pastar. Era um garoto inteligente, mas que se mostrava pouco apto ao trabalho do campo. Assim, foi mandado estudar, a custa de grandes sacrifícios. Tornou-se professor e um mau caráter, pois tinha vergonha do seu pai, vestido pobremente e coxo. Estudou na Espanha e, depois, durante sete anos, em Tolosa. Foi ordenado sacerdote e esperava obter, pela mediação de seus protetores, um episcopado. Mas, enquanto retornava para casa por mar, sua embarcação foi capturada por piratas turcos, que o conduziram à Tunísia.
Em Tunis, a capital, ele e os outros prisioneiros foram obrigados a desfilar pelas ruas, apalpados, forçados a abrir a boca para terem seus dentes examinados, e ainda tiveram de correr e saltar para exibirem a musculatura e agilidade.
Ele foi vendido, em primeiro lugar, a um pescador. Depois a um velho alquimista, naquele tempo tido como um sábio. Por isso, foi chamado pelo sultão a Istambul, tendo morrido na viagem, deixando Vicente como propriedade de um seu sobrinho, que logo o revendeu a um cristão renegado de Nizza.
Uma das três mulheres deste herdeiro ficou impressionada com a piedade de Vicente e, desejosa de fazer-se cristã, fugiu com ele para a França, onde o Cardeal Montório, vice-legado do Papa, tomou-se de simpatia por Vicente, em boa parte pelas estranhas artes que aprendera na África. De fato, ele se tornara, entre outras coisas um ventríloquo, podendo fazer “falar” um boneco. O cardeal o levou consigo a Roma. Em 1609, mandou-o de volta à França, em missão junto a Henrique IV, o rei francês, que, naquele momento, procurava constituir uma aliança contra a Áustria e a Espanha, então governadas pela mesma dinastia.
Nunca Vicente revelou nada a respeito desta missão. Já estava tão interiormente mudado, que também nunca pediu recompensa ou reconhecimento pela boa execução do que lhe fora confiado.
Assim, ficou vivendo em extrema pobreza em Paris. Depois, porém, foi nomeado distribuidor das esmolas da ex-rainha Margarida de Valois (pronuncia-se “valuá”). Conheceu o famoso pregador padre oratoriano, Bérulle. Morou um tempo com ele. Foi nomeado pároco da paupérrima paróquia de Clichy. Por isso ficou conhecendo a vida dos reis e a vida dos muito pobres, ávida dos camponeses e a vida dos religiosos.
Repentinamente, foi encarregado da educação de uns “jovens diabos” – como os descreveu a uma tia deles -, filhos do fidalgo Filipe Emanuel, conde de Gondi, comandante das galeras reais.
Naquela casa nobre, Vicente viveu com a austeridade de um monge. Por fim se impôs, senão aos terríveis pimpolhos, pelo menos a seus pais. Conseguiu dissuadir o conde de bater-se em duelo. Um verdadeiro milagre! Conseguiu também que a grande dama se desse às visitas aos doentes.
Com grande medo, porém, de se tornar “uma pessoa de respeito”, Vicente foi refugiar-se noutra paupérrima paróquia. Ali, durante uma epidemia, quando obteve assombrosas conversões de fidalgos, que foram tão generosos a ponto de convencê-lo de que era necessário organizar os serviços de caridade.
Em 1617, formulou um Regra muito simples de vida, que está na origem das Irmãs de Caridade e de muitas outras iniciativas. Imaginou uma comunidade de padres que trabalhassem com os camponeses, sem procurar promoções, e colocando o que obtivessem com seus trabalhos numa bolsa comum.
A família Gondi insistia em tê-lo de volta. Mas a senhor morreu e o conde – quem diria! – se fez membro da congregação dos padres oratorianos (fundados por São Filipe de Néri). Vicente estava livre para dar início, com 50ª nos de idade, a sua grande obra.
Posso apenas mencionar um episódio extraordinário. O senhor Gondi havia sido comandante das galeras reais, cujos remos eram movidos por condenados, presos por correntes a bancos e nus da cintura para cima, afim de que o chicote melhor os ferisse. Durante as batalhas navais, estas embarcações eram, com freqüência bombardeadas, incendiadas, afundadas. Eram embarcações infernais. Vicente, que já conhecia de perto a sujeira, o fedor e a crueldade que nelas reinavam, conseguiu que es equipasse uma galera hospital, para os remadores doentes e feridos. Foi nomeado capelão geral das galeras em 1619. Teria adquirido experiência solidária, fazendo-se remador por um tempo? Não temos certeza, mas é provável.
Mencionarei outras coisas que fez, sem cuidar das datas. Tinha convicção de que os sacerdotes precisavam de formação de qualidade. Os padres que cuidavam das paróquias do interior estavam muito desencorajados. Os camponeses, naqueles tempos de grande carestia, eram desprezados como “animais imundos”, que se refugiavam nos matos e arrancavam raízes para sobreviver, escondidos das tropas que devastavam tudo em sua passagem. Alguns pouco grandes senhores fechavam-se nos seus castelos e se cercavam de luxo. Num extremo, a miséria muda e ignorada dos camponeses; noutro a retórica dos púlpitos e a opressão tirânica.
Por isso Vicente fundou a Congregação dos Padres Lazaristas, assim conhecidos porque, no começo, se reuniram num velho convento dedicado a São Lázaro (Padres da Missão). A seguir, cuidou das populações urbanas. Sentia necessidade de cuidar dos indigentes, que, aos milhares, se acotovelavam em torno de seus muros e portas e se espremiam em suas vielas. Tinha presente seu tempo de escravo na Tunísia. Ora, havia pelo menos 40 mil cristãos escravos no norte da África, sendo alguns jovens ingleses seqüestrados por piratas.
Apenas a partir de 1830, esses piratas desapareceram dos mares. Contudo, até hoje, muitos europeus se deixam tentar pela exploração e pela licenciosidade em terras africanas, abandonando suas raízes cristãs. Vicente enviou seus padres para a África, e, logo que pode, para a Irlanda, Escócia, ilhas Hébridas, Polônia. Depois foi a vez de Madagascar, a grande ilha do Oceano Índico, então conhecida como o túmulo do homem branco”.
E, mais tarde, seus lazaristas foram para o Egito, o Brasil, a China.
Mas, na Igreja católica não existe contradição entre o sacerdote e o leigo. Vicente moveu-se a animar entre os leigos o desejo de servir aos desvalidos por amor a Cristo. Ora, as mulheres que tinham este desejo, eram constrangidas, pela tradição e pela opinião pública, a se fecharem nos conventos e mosteiros. Vicente abriu-lhes as portas para viverem fora das clausuras, fundando as irmãs de caridade, para que andassem por toda parte servindo aos pobres.
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Em 1650, Vicente partiu em socorro dos 500 mil indigentes que havia em Paris daquela época. Em cada grupo de 50 parisienses, 4 viviam na miséria total. Começou com as criancinhas, cujos pais, desesperados, eram obrigados a deixar em instituições, onde eram vítimas de espantosa crueldade, até mesmo eliminados em massa. Foi também o primeiro, na França, a cuidar deles. Andava pelas ruas e becos e chegava a conhecer muitos pelo nome. Naquele tempo, bastava uma menina andar sozinha na rua para ter a reputação perdida. Ele insistiu com as irmãs de caridade, para que tivessem os hospitais como morada e as ruas como suas clausuras. Muitas mulheres da aristocracia e da classe média acorreram a seu chamado. Também serviam aos loucos e deficientes, em São Lázaro, que, hoje, dá o nome a uma das grandes estações de estrada de ferro de Paris.
Mal posso tocar nos relacionamentos que Vicente teve com França política e a realeza. Foram deveres que lhe eram muito penosos. Contudo, quando Luís XIII quis morrer tendo-o à cabeceira, Vicente acudiu. Basta lembrar que durante o horrendo cerco de Paris, na própria corte, havia um grupo de senhoras devotas que trabalhavam para assistir aquelas mesmas pessoas consideradas rebeldes. Os ricos se despojavam de suas jóias para ajudar as boas obras de São Vicente. Comerciantes lhe doavam mercadorias.
Mas ele já estava velho e cansado. Uma invencível sonolência o assaltava com freqüência. Ele dizia que este sono era um irmão que vinha antes da irmã, a morte. Suas pernas estavam inchadas e, no entanto, tinha de permanecer sentado muitas horas para dar conta de sua vastíssima correspondência. Mais adiante, abriram-se feridas e ele teve de ficar deitado. Para erguer-se, agarrava-se a uma corda, que tinham prendido ao teto. Todos os seus antigos amigos e colaboradores já haviam morrido. Ele sabia que logo chegaria sua hora, mas o sorriso não se apagava em seus lábios finos, nem sua mente (as cartas o provam) vacilava. Quem o assistia costumava recitar-lhe versículos da Sagrada Escritura e ele respondia: “Paratum!” (“Pronto!”). No último momento, disse: “Creio!”; e logo: “Confio!”. Às quatro horas da manhã do dia 27 de setembro de 1660, ele se foi, sentado numa poltrona, naquela mesma hora em que, por tantos anos, costumava se levantar para fazer oração.
Lembremo-nos: Vicente tinha começado sua vida como um camponês que se envergonhava bastante de sua condição e queria subir socialmente. Não era perfeitamente escrupuloso nas questões de dinheiro. Era ansioso de fazer carreira eclesiástica. Dava sinais de seu temperamento, que ele mesmo chamava “sarcástico e seco”, tendo acessos de humor “negro e fervente”.
Creio que foi a experiência da escravidão que lhe deu a lição radical, de que ele necessitava e que o mudou num homem totalmente indiferente ao dinheiro, indiferente às honrarias da corte, e que bem mereceu o título, concedido por uma espécie de instinto generalizado de “o bom Senhor Vicente” (“Le bom Monsieur Vincent”). Em francês “bon” tem um sentido mais amplo do que o português “bom”, conotando um elevado grau de amabilidade de caráter.
Com efeito, na sua gentileza nada havia de molenga. Suas inumeráveis cartas revelam uma pessoa hábil e afetuosa, mas que não aceita comprometimentos. Àqueles que se ofereciam para trabalhar come ele, ele exigia tudo. Infelizmente, parece fácil servir a Cristo apenas quando se tem capricho, com reservas!
Deixem-me insistir ainda: o segredo dos santos é que eles julgam a vida e se dão ao trabalho no mesmo plano de Cristo. Cristo nunca desertou. Não tomou férias. Não se apropriou de nada para si. Daqui, talvez, a coragem de Vicente. Seus retratos na mostram traços elegantes, mas o olhar é pensativo e inteligente ao mesmo tempo, sem deixar perceber sua audácia e seu ardor.
Este homem, que soube esperar tanto tempo para começar sua grande obra, queria santificar todos os padres, servir a todos os hospitais e todas as prisões, salvar todas as crianças. Tendo livrado suas amigas da clausura monacal, ele é o inspirador de milhões de mulheres devotas que, pelo mundo inteiro, de seu tempo em diante, assumiram obras de caridade pessoais, que são absolutamente necessárias. Não é exagero dizer que ele foi o inspirador de todas as obras femininas do mesmo tipo que floresceram em anos próximos a nós.
Ozanan adotou imediatamente o seu nome quando, por sua vez, fundou as “Conferências de São Vicente”, que colocaram os leigos a serviço dos deserdados e desvalidos.
Pessoalmente, sinto que “volto a casa” cada vez que posso visitar a grande casa vicentina no alto do morro, sob o nevoento céu de Sheffield.
 
A glória do Renascimento durou apenas um breve tempo e as misérias que causou ainda perduram. A adoção do poder, da riqueza e da carne, que se expressaram na monarquia absolutista, que queria imperar sobre a própria Igreja, o insano luxo das cortes, as enormes riquezas de uns poucos, sua descarada imoralidade desgostaram os que se davam ao trabalho de pensar e levaram massas ao desespero.
Os mesmos homens que, por sua posição e capacidade teriam podido promover o progresso, na realidade o retardaram. O desgosto os levou ao cinismo e com o cinismo nada se cria. Eles tiraram vantagem do sistema que, no fundo, desprezavam, sabendo muito bem que ele estava destinado a desabar.
Estourou a revolução francesa (seguida de umas doze outras revoluções até as guerras de Napoleão) antes que a Europa pudesse sossegar um pouco.
Filosofias superficiais foram acompanhadas de um rápido progresso da ciência num campo puramente material, com uma selva de novas teorias, onde a mente humana se ressecou mais do que antes. Foi num período assim, duro e inquieto, que viveu o santo de que lhes falei. Parece-me que sua lembrança, as aparições de Lurdes e a história deste santuário são refutações suficientes do triste materialismo daquele tempo.